Governo Austríaco: Entre Trancos e Barrancos

Depois da extradição de Tina e sua família para a Georgia aconteceram protestos e declarações públicas de políticos e artistas austríacos. Incluindo o ex-Prefeito de Viena, Michael Häupl.  Em entrevista ao principal telejornal de Viena, o Wien Heute, ele disse que era um absurdo, que crianças nascidas na Áustria deveriam ser extraditadas. Häupl afirmou que deveria haver uma opção humanitária, para que Tina e outras crianças, na mesma situação possam permanecer no país .

Como o DricaRibas já escreveu no post anterior https://dricaribas.com/tina-deveria-ficar-na-austria/, histórias de extradição sempre acontecem e causam comoção no público. Aproveitando essa carona, a oposição austriaca, 4 de fevereiro colocou um voto de desconfiança contra o Ministro do Interior, Karl Nehammer, do Partido Conservador – ÖVP. Caso, seu parceiro de coalizão, os verdes aceitassem esse voto, o governo poderia cair, o que não aconteceu.

Depois do escândalo do Ibiza-Affair.

O governo austríaco atual é formado por uma coalizão entre o partido conservador, ÖVP* e o partido verde, Grüne*. Tomou posse no 7 de janeiro, do ano passado, um pouco antes da Pandemia estourar.

Veio depois da crise Ibiza Affair, furo jornalístico da Revista Spiegel e Süddeutsche Zeitung. Em vídeos gravados em uma mansão, em Ibiza, na Espanha, o ainda líder do FPÖ*, Hans Christian Strache pede a uma suposta oligarga russa dinheiro para comprar o principal jornal austríaco “Krone Zeitung” entre coisas, nada republicanas. O fato que isso resultou na queda do governo ÖVP-FPÖ, gerou um governo tampão, com a antiga Vice-Presidente do Supremo Tribunal Federal, como Primeira-Ministra, Birgit Bierlein e nas eleições que gerou a coalizão atual. Claro, aqui estou resumindo bem a coisa.

Seguramente há uma diferença ideológica muito grande entre os conservadores e verdes no assunto. Sebastian Kurz adota uma linha dura, sobretudo para agariar os votos da extrema-direita. Os Verdes são colocados em prova, junto ao seu eleitorado, especialmente a ala mais ideologizada.

Em contrapartida, o Vice-Primeiro ministro dos verdes, Werner Kogler sugere uma CPI justamente para discutir a extradição de crianças, em situação parecida com a da Tina. Uma solução meio termo, mas que forçaria os conservadores a ter “algum movimento” no assunto.

Forçar eleições agora seria um grande problema para todos os partidos, especialmente para os conservadores, em plena Pandemia, especialmente depois do escândalo do Ibiza-Affair. 

O tema da imigração e refugiados são assuntos sensíveis e muito polêmicos. Pode-se ganhar muitos votos, mas também perdê-los. Em tempos de Pandemia, com o vírus fora de controle e com a economia em frangalhos, ter eleições seria um gasto desnecessário.

No sábado, 27 de fevereiro, houve manifestações pacíficas contra a extradição da Tina e outras crianças, aqui em Viena. O ponto de partida é que mesmo que Tina seja nascida na Áustria, ela não ganha a cidadania automaticamente, já que seus pais não são austríacos,

Em vários países europeus, incluido a Áustria ,a cidadania é dada pelo sistema Jus sanguinis, cuja a cidadania é atribuída por ascendência, família de sangue. No caso do Brasil ou Estados Unidos, todos nascidos no país ganham a cidadania automaticamente, no sistema Jus Soli.

Para concluir o post, a única alternativa que o DricaRibas vê para este tipo de extradição é uma alternativa humanitária. O assunto já está sendo discutido na sociedade austríaca, que já é um bom caminho.

Observações: Österreich Volks Partei – Partido do Povo, Freiheit Partei Österreich – Partido da Liberdade, Grün Partei – Partido Verde. A oposição é composta pelo FPÖ, SPÖ – Sozialdemokratische Partei Österreich, Partido Sozial-Democrata e Neos, os liberais.