O Desfile das Campeãs do Carnaval Carioca

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Eu e essa belíssima baiana da Império Serrano. Carnaval de 2008.

O desfiles das campeãs fecha o ciclo de ritual das escolas de samba. O ciclo começa com a escolha do enredo, a escolha do samba-enredo, o processo de preparação das fantasias, alegorias, passando pelos ensaios na quadras das escolas e no Sambódromo até o desfile. Esse processo dura um ano e para o carnaval 2020, esse processo já começou.

O desfile das campeãs é um momento mais relaxado. Podemos até considerá-lo mais performático. Os membros das escolas de samba, mais relaxados, dançarão com mais vontade.

Do ponto de vista do resultado, na leitura DricaRibas, a vitória da Mangueira é a vitória do politicamente correto. Houveram desfiles melhores, mais tecnicamente perfeitos, mas a necessidade de lacrar gritou mais alto. Além de agradar um setor da esquerda lacrador, também é uma desculpa pela Liesa – A Liga Independente das Escolas de Samba, a que organiza o campeonato para a escolha da melhor escola de samba do carnaval.

O financiamento das escolas de samba sempre foi um ponto obscuro. Quem é do Rio, sabe que as escolas de samba são financiadas pelo jogo do bicho. Presidentes ou patronos sempre foram o chefe da banca de bicho do bairro. Inclusive há sambas-enredos que relatam essa relação. O famoso samba-enrendo “Contos de Areia” da Portela para o carnaval de 1989. Inclusive, sempre foi um diferencial, com a Império Serrano, a vizinha pobre de Madureira. Tanto é assim que a Império Serrano se transformou em escola pingue-pongue. Fica um tempo no grupo especial e depois desce, fica um tempo e aí vai. A escolha do samba-enredo em cima da música do Gonzaquinha mostrou esse problema. A música do Gonzaquinha é linda, mas o Império deixou de lado a sua tradição no carnaval carioca. Que tristeza!

A Liesa é composta por bicheiros. Os mesmos possuem o seu braço armado que é composto pelas mílicias. Foram as milícias, de acordo com as investigações da polícia que mataram Marielle Franco. Ela que foi tema do enredo da Mangueira, a escola de samba vencedora do carnaval de 2019.

Tenho um imenso respeito pela Mangueira e por sua história. Cartola, um dos seus fundadores escreveu um dos sambas mais lindos, da nossa história da música “As Rosas não falam”.

Enquanto não for resolvido a questão do financiamento das escolas de samba estaremos nesse dilema. Na leitura DricaRibas, o financiamento deve ser transparente e que todas as escolas tenham o mesmo orçamento para se avaliar a capacidade artística de cada uma.

E para concluir: o assassinato de Marielle Franco e de seu motorista Anderson devem ser esclarecidos e os culpados punidos. Doa a quem doer.

 

Desfile das Escolas de Samba do Rio 2019 – Análise DricaRibas

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Eu e minha máscara de paetê

Os desfiles cumpriram com seu ritual. Cada escola apresentou o seu enredo, da maneira ou da disponibilidade financeira que lhe foi possível.

Eu gostei dos desfiles. Houve enredos bem contados, como foi a da União da Ilha do Governador, houve enredos simples, mas que empolgaram a platéia, como a do Império Serrano, com a música do Gonzaquinha ou mais ideológicos, como a da Mangueira.

Vamos lá, para a nossa análise:

Na primeira noite, o desfile do Salgueiro foi o melhor, na leitura DricaRibas. Com o seu enredo sobre Xangô contagiou a avenida.

A Império Serrano, a escola pingue-pongue optou com um samba-enredo da música “O que é, o que é” do Gonzaquinha. Com fantasias e alegorias simplesinhas, o escola mostrou sua garra. A pergunta é: A Império continuará no Grupo Especial?

O desfile da Viradouro foi especial. Paulo Barros mostrou sua maestria com o enredo “Viraviradouro” ou algo do gênero. Imagino ele, pela pairagens do Centro Norte da Europa, preparando palco para peças de teatro ou óperas. Seria imperdível.

No fim, não podíamos deixar de dedicar umas palavras a Beija-Flor. Mesmo que se seu desfile, não tenha sido espetacular, há uma coisa que admiro neles: eles estão muito ligados na sua comunidade.

Na segunda noite, eu gostei da Portela. Com seu enredo sobre a Clara Nunes, mostrou um desfile coeso. Fez reverência a Madureira, bairro de onde vem a escola. A escola também contou com um modelo de fantasia assinado por Jean Paul Gaultier.

Bom também foi o desfile da União da Ilha, com seu enredo sobre o Ceará. Houveram alas que foram confeccionadas com rendas e bordados típicos de lá. Desfiles com um toque fashion.

Por fim, o desfile da Mangueira. O desfile foi bom, mas não achei que ele meresse o Standard de Ouro do Jornal “Globo”. Haviam desfiles melhores. A escolha se deu por motivos ideológicos, aliás, diga-se de passagem, refletindo o momento político que estamos vivendo.

Vale lembrar, como eu escrevi, no começo deste texto, que a escolha do enredo cabe a escola. A mesma possui a liberdade para desenvolvê-lo da maneira que queira.

A questão do financiamento:

O que o DricaRibas notou é que houve uma homegeniedade dos desfiles, no quesito fantasias, alegorias e carros alegóricos. A maiora das escolas de samba dispuseram de uma quantia de dinheiro semelhante. Um pouco diferente de carnavais passados, onde haviam escolas que gastavam rios de dinheiro.

Para haver uma igualdade entre as concorrentes, o DricaRibas sempre defendeu que as escolas tivessem um orçamento igual. Assim se avaliaria a capacidade de produzir o desfile, do ponto de vista artístico.

Por outro lado, sempre foi conhecido a origem ilícita do financiamento dos desfiles das escolas de samba. Quase sempre, dinheiro proveniente do jogo do bicho e outras atividades ilícitas.

Como controlar essa questão? Pergunta impossível de se responder.

Blocos Carnavalescos & Desfiles das Escolas:

Outro fato importante é o retorno dos blocos carnavalescos no carnaval carioca. Uma resposta à comercialização exagerada dos desfiles grupo especial. Para participar dos desfiles, seja como espectador ou membro de uma escola, há um custo, seja ele com a entrada ou com a fantasia. Sem contar com as regras que se devem obdecer para desfilar. Por exemplo, executar coreografias ao invés de dançar samba esponteneamente.

Os blocos voltaram e mostram que a tradição de brincar o carnaval está mais forte que nunca.

A pergunta que fica é: Como será essa coohabitação entre desfiles e blocos? O DricaRibas acredita que ambos conviverão juntos, em harmonia.

Por fim, o desfile das escolas de samba é um belo espetáculo. Que assim continue. Agora, as escolas de samba começarão a trabalhar para o desfile do ano que vem. Encerrou-se o ritual do carnaval 2019 para começar o ritual do carnaval do ano 2020.